sábado, 26 de janeiro de 2008

Lamentações - "Do que se queixa, pois, o homem vivente? Queixa-se cada um dos seus pecados. Lm 3.39

Por que olhaste-me e geraste-me? Por que destes início a um coração como o meu? Por que encobristes dos meus olhos caminhos vacilantes?

Foram-me reservados caminhos sombrios. Caminhos estes que eu detestei e nunca os amei. Mesmo quando ainda criança, a sua dor não me fora oculta. Eu abominei, em meu coração, a minha natureza humana e não aprovei em mim, os meus desejos carnais, por tê-los como contrário ao que entendi ser reto. Mas sempre esteve em mim o meu desejo, e nunca consegui vencer aquilo que reprovei. O que tornou para mim a minha vida penosa.


Sobrevieram-me aos meus dias lamentação. Esqueço-me da alegria plena e verdadeira de algum dia. Meus dias tornaram-se mais amargos que a morte. Reclamo a Deus por que Ele esconde-me o meu fim de mim a me dar a vida que aborreço. Lamento ter nascido e os meus olhos terem contemplado toda a minha podridão. Sou atraído por algo que não quero, não negando assim a vontade que está em mim.

As trevas tornam-se mais claras que os meus dias. E a própria tristeza, mais alegre que eles. Desejaria nunca viver para não conhecer e ver quem eu sou, tendo que andar com o que aborreço em meu próprio ser. O que foi criado sem fôlego tem mais vida do que eu.

Se Deus atentasse para o meu clamor dentro de mim! Se Ele me fizesse mais feliz, atendendo a minha vontade! Mas por que os seus olhos se escondem? Por que permite Deus que os meus dias insípidos se multipliquem? Que prazer Ele encontra em que eu viva?

Leva-me de volta ao teu seio, tu, que me gerastes, para longe de mim e deste mundo apavorador, se puderes. Faça-me retornar aos teus braços e sustenta-me pela tua força, pois já não resta-me nenhuma. Faz-me ouvir canções de amor e de paz, e não me repetes as histórias de guerras da infância. Fujo como criança da aparência deste mundo, mas deparo-me com a maldade em meu próprio ser. De mim mesmo tenho pavor e me assusto a cada vez que me conheço.

Ó ventre de onde fui trazido! porque não ocultaste-me de ver todas estas coisas? Por que não tragaste-me como os que são levados a sepultura? Por que os homens nascem para levantarem a guerra e ambiciona além das suas forças o seu coração? Ah! Se o vento me levasse sobre as suas asas! Se da terra eu fosse trasladado para não ver o mal! A tudo contamina e eu não sou exceção.

Os dias passam, e me envelheço, e me aflijo. Passam-se meses, anos, décadas, e o homem se levanta contra o próprio homem. Virá uma outra geração e nada haverá de novo. Logo, para que estamos aqui? Para alimentarmos a nossa carne e darmos força ao nosso braço para o mal e depois morrermos? Luta, jovem, pela esperança do dia de amanhã! Para que o sol brilhe em sua claridade e a sombra não encubra a sua luz.Onde está o teu vigor, jovem? Por onde vagueia a tua força? Por que se escondeu o teu sorriso? A alegria foge de ti. Acompanha-te a tua solidão e fragilidade.

Ah! Os meus olhos não se contêm, pois os meus dias passam como a noite e contemplo apenas em minhas mãos a fragilidade que está nelas.Sou escravo da minha própria imaginação: não consigo vencer aquilo que nem sequer consigo tocar. Onde está a vitória que se é prometida? Onde a força com que se pode vencer? A alegria que satisfaz ao coração, aonde se foi? O regosijo de viver, por que não vem? Sou como cego por entre a verdade. Sou privado dela e me desvio de alcança-la. Encontro-me miseravelmente entre a escuridão e me perco. Os meus caminhos se repetem entre os dias numa vida de vaidade. Onde está quem se compadeça? Não há quem possa ajudar? Destina-se o homem à morte? Não há salvação? Por que não se despertam os olhos oniscientes? Por que se porta como se não existissem? Enchemo-nos de imundícies e nos perdemos. Porque somos engolidos pela boca da terra e precisamos de socorro. Haverá alguém que ouça o gemido? Que livre a alma dos que são tragados, mas esperam ver a luz? Todos os meus dias terão passados. E o que eu terei aprendido? O que terei praticado?

Ouve, Senhor! Em que te agrada um coração como o meu? Pois os teus olhos não se compadecem e não guardas o meu coração da angustiante dor. Recorres contra mim e não te contentas com o mal que me sobrevém. Porque criaste-me e sou como instrumento de satisfação da tua ira? Olha para o meu coração e ver que ele não descansa. Os teus olhos não se saciam sobre ele. Não encontro socorro! Deste-me vida e te alongas de mim. Se me rejeitas, quem me amará? Se me entregas a dor, quem me livrará? Até quando provarei do peso da tua mão? Até quando a minha língua falará de lamentação? Quando te fartarás da minha dor? Se me rejeitas, melhor não seria se me consumisses? Se não me abençoas, melhor não seria se desses cabo a minha existência? Mais eis que me enches de vigor e de fôlego de vida. Por que te tornastes meu inimigo forte? E esperas os meus ossos se consumirem na sua carne? Ainda que valor algum eu não tenha, ainda assim, não foram as tuas mão que me criaram? Ainda que importância alguma eu não tenha, ainda assim, não foi a tua mão que me deu a vida?

Por que, Senhor? Por que os teus olhos não têm prazer em mim? O meu coração reclama pela tua face. Não me molestes na minha pequenez! Não me consumas na minha fraqueza. Como poderia eu suportar o terror do teu poder ou deter a tua formidável mão? Não te apresses a me destruir no teu furor e te esqueças de que és benigno. Como eu contenderia contra ti? Mas se tua forte mão está contra mim, quem te reprovará? Vê que sou vulnerável aos teus olhos.

Volta, Senhor, os teus olhos para mim com o bem! Porque és amor desde o princípio. Não devores uma ave indefesa que não tem para onde fugir. Dá-me graça! Esperarei pela tua misericórdia.

pácifico para comigo, Senhor! Não destruas a obra de tuas mãos. Como povoarias a terra e manifestarias o que estabelecestes antes mesmo do principio? Lembra que o Senhor desejou tudo que existe. Pela tua vontade, todas as coisas se formaram. Ensina-nos a andar em tua vontade, para que não nos desviemos do princípio da tua Verdade e sejamos perfeito como o Senhor e puros como a tua santidade!

"Porque tu tens sido o meu auxílio; jubiloso cantarei refugiado à sombra das tuas asas." Sl 63.7
"O Senhor sustenta a todos os que caem e levanta a todos os abatidos." Sl 145.14


E. Emanuel 

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